Antes de tudo, é preciso dizer que há poemas que não envelhecem. Permanecem respirando entre nós porque foram escritos com a tinta mais rara: a da verdade do coração. Assim é o soneto "Marquês", do saudoso médico Dr. José Vieira Seródio. Quem o lê percebe que o autor não escreveu apenas sobre um cão; escreveu sobre a fidelidade, a gratidão e a dor silenciosa da despedida. O clínico que tantas vezes enfrentou o sofrimento humano revelou, na poesia, que também sabia auscultar a alma. Em seus versos, a medicina cede lugar à ternura, e o bisturi transforma-se em pena delicada, capaz de eternizar um amigo de quatro patas.
Há uma elegância clássica em cada estrofe, mas o que realmente emociona é a humanidade que delas transborda. Ao afirmar que "tudo que é puro e bom rapidamente passa", José Vieira Seródio alcança uma verdade universal: a brevidade da vida torna ainda mais precioso o amor que oferecemos e recebemos. E, ao concluir que nem o próprio ser humano consegue imitar plenamente as virtudes de um cão, oferece uma lição de humildade que atravessa gerações. O poema não exalta apenas um animal; celebra a lealdade como uma das mais altas expressões da dignidade da vida.
Natural de Pirapetinga, em Bom Jesus do Itabapoana, Dr. José Vieira Seródio pertence à estirpe daqueles homens que honraram simultaneamente a ciência e a cultura. Médico dedicado e imortal da Academia Bonjesuense de Letras, ocupando a cadeira nº 17, patroneada por Monsenhor Jeferson Valgueiro Diniz, deixou um legado que ultrapassa os consultórios e alcança a literatura regional. Seus versos demonstram que o conhecimento cura o corpo, mas é a sensibilidade que consola o espírito.
Ao republicar este soneto, O Norte Fluminense presta homenagem não apenas ao poeta, mas ao homem que compreendeu que a grandeza se manifesta nas pequenas fidelidades da existência. A lembrança de um amigo leal faz com que a voz de José Vieira Seródio continue viva, recordando-nos que a verdadeira poesia não é apenas escrita: ela permanece habitando, silenciosamente, a memória e o coração dos homens.
Marquês
Não foi um cão qualquer. Tinha nobreza e graça
e um porte senhoril de modesta altivez.
Não houve mais fiel entre os de sua raça,
nem noutras raças mais nunca haverá talvez!
Foi-lhe a vida, porém, avaramente escassa,
e bem cedo chegou de sua morte a vez.
Tudo que é puro e bom rapidamente passa,
como passou no mundo o meu fiel "Marquês"!
Só me pode entender nas coisas que ora digo
quem um cão possuiu e o lembra com saudade,
como alguém que recorda o seu melhor amigo...
Se virtude maior não há que a gratidão,
nem mesmo o humano ser nas coisas da amizade,
é capaz de imitar as virtudes do cão!
2/1/1966

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