sexta-feira, 24 de julho de 2026

Verônica: a escultora que conversa com o cimento e com a memória

 


Verônica Souza da Silva é uma artista que molda a matéria e o tempo. Em suas mãos, o cimento deixa de ser apenas argila e calcário e passa a carregar lembranças, afetos e esperanças. Cada escultura parece nascer de uma conversa silenciosa entre o barro e a alma, como se as montanhas de Cachoeiras de Macacu ainda soprassem aos seus ouvidos os segredos da criação.

Tudo começou quando era apenas uma menina de doze anos. Enquanto muitas crianças descobriam os brinquedos da infância, Verônica descobria a linguagem das mãos. Seu mestre era o próprio pai, o inesquecível artista popular Chico Voador. Sem grandes discursos, ele ensinava pelo exemplo. Esculpia trabalhadores rurais de pés descalços, mãos largas e ferramentas firmes, homenageando aqueles que transformam a terra em alimento. Ao vender as primeiras esculturas da filha, devolvia-lhe integralmente o dinheiro. Era muito mais que um gesto de incentivo: era a proclamação silenciosa de que o talento precisava ser tratado com dignidade e liberdade.

A menina cresceu, mas nunca abandonou o barro que lhe ensinou a sonhar. Ao lado do pai e dos irmãos, fez da cerâmica um ofício e uma missão. Vasos, esculturas, jardins, encomendas e artesanatos passaram a levar a beleza para tantos lares. Mais tarde, também ensinou crianças a descobrir que a arte não se aprende apenas com pincéis, mas com o encantamento de quem acredita que criar é uma forma de iluminar o mundo.

Então chegou o grande desafio de sua vida. Durante uma década, entre 2009 e 2019, ao lado dos irmãos Geani e Marciel Silva, ajudou a erguer um verdadeiro evangelho esculpido em pedra, cimento e sensibilidade no Parque Temático Ambiental Montes Santos, a Terra Santa de Japuíba. Mais de setecentas esculturas em tamanho natural transformaram episódios bíblicos em caminhos visíveis, permitindo que milhares de visitantes percorressem a vida de Cristo não apenas com os olhos, mas também com o coração. Poucos artistas têm o privilégio de dedicar dez anos da própria existência para construir uma obra que atravessa gerações.

Mas talvez uma de suas esculturas mais comoventes não tenha sido inspirada nas Escrituras, e sim na própria gratidão. Em 2011, ao lado do irmão Marciel, eternizou Chico Voador em uma escultura de dois metros de altura na Praça Maria Zulmira Torres, em Japuíba. Não era apenas um monumento. Era uma filha devolvendo ao pai aquilo que dele recebera desde a infância: a permanência. Porque a verdadeira arte desafia o tempo, e o amor filial transforma a saudade em patrimônio.

Quando a vida a levou para Rio das Ostras, em 2019, Verônica não chegou como quem procura um lugar; chegou como quem leva consigo um universo inteiro. A cidade passou a conhecer sua delicadeza criativa, reconhecida no Concurso de Presépios da Fundação de Cultura, onde o Menino Jesus nasceu dentro de uma concha que também era ostra, transformando a pérola em símbolo do Cristo e da própria cidade. Uma metáfora de rara beleza, onde fé, natureza e identidade local se abraçaram numa única obra.

Hoje, suas biojoias da marca Alma Botânica, suas esculturas de trabalhadores rurais e suas criações feitas com materiais recicláveis continuam revelando a mesma essência da menina que um dia observava o pai modelando a argila. Verônica compreendeu que nenhuma matéria é pobre quando encontra mãos capazes de revelar sua beleza. O cimento pode tornar-se memória. O descarte pode tornar-se poesia. A simplicidade pode tornar-se eternidade.

Assim, sua trajetória ensina que a arte não nasce apenas do talento, mas da fidelidade às próprias raízes. E enquanto houver um pedaço de argila esperando por suas mãos, um fragmento de natureza pedindo uma nova forma ou uma lembrança necessitando de permanência, Verônica Souza da Silva continuará esculpindo muito mais do que imagens: continuará esculpindo a própria esperança humana.






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