quarta-feira, 22 de julho de 2026

Quando Rachmaninoff Entrou em Minha Vida

O Dia em que Descobri a Música Clássica




Por Gino Martins Borges Bastos 


Nos estudos preparatórios para concursos públicos, existe uma regra quase sagrada: buscar as provas dos anos anteriores. Nelas, escondem-se pistas, tendências e, sobretudo, oportunidades de aprender.

Foi exatamente o que fiz.

Em uma dessas provas deparei-me com uma questão de conhecimentos gerais sobre um nome que, até então, pouco significava para mim: Sergei Rachmaninoff.

Descobri que aquele compositor, pianista e maestro russo, um dos maiores virtuoses do piano de todos os tempos, havia legado ao mundo obras de extraordinária beleza, como o Concerto para Piano nº 2 e a Rapsódia sobre um Tema de Paganini.

Naquele instante compreendi uma verdade simples: saber que não sabemos alguma coisa é o primeiro passo para desejar conhecê-la. A ignorância consciente desperta. A ignorância inconsciente, ao contrário, nos mantém adormecidos em berço esplêndido.

Uma simples pergunta de concurso transformou-se numa janela aberta para um universo que eu desconhecia.

Passei a estudar música clássica e a conhecer seus grandes heróis. Percebi que aquelas melodias nunca estiveram tão distantes de mim quanto eu imaginava. Sempre apareceram, discretamente, no rádio, na televisão, no cinema e até nas solenidades oficiais. Elas habitavam minha memória sem que eu lhes soubesse o nome.

Foi então que conheci Richard Wagner.

Sua vida me impressionou profundamente. Os livros o descreviam como um homem amado e odiado com a mesma intensidade. Diziam que A Cavalgada das Valquírias era a música predileta de Hitler e que simbolizaria destruição. Em vez de aceitar aquela interpretação como definitiva, resolvi escutá-la.

Comprei um CD. Entrei na sala, sentei-me no sofá, liguei o aparelho e fechei os olhos.

Queria ouvir a música, não os preconceitos.

A experiência foi inesquecível. Descobri uma obra de extraordinária força artística. Descobri também que muitas músicas presentes em casamentos e celebrações têm origem na genialidade de Wagner. A arte, tantas vezes, é maior do que as circunstâncias históricas que procuram aprisioná-la.

Vieram então outras descobertas.

Quando criança, eu ouvia diariamente o Programa Haroldo de Andrade, na Rádio Globo. Sua inesquecível abertura utilizava um célebre arranjo de Ray Conniff para o Concerto para Piano e Orquestra nº 1, de Piotr Ilyich Tchaikovsky.

Aquela melodia sempre me emocionou, muito antes de eu saber quem a havia composto.

Mais tarde, estudando sua vida e suas obras, compreendi a grandeza de Tchaikovsky. Foi um enriquecimento espiritual que dificilmente poderia medir.

Depois vieram Chopin, o eterno Poeta do Piano; Bach, cuja música parece conversar com o infinito; Beethoven, que transformou o sofrimento em esperança; Mozart, luminoso em sua genialidade; Debussy, que pintava paisagens com sons.

Entre os brasileiros, Carlos Gomes sempre ocupou um lugar especial em minha memória afetiva. Meus pais, Luciano Bastos e Leny Borges Bastos, mantinham sobre o piano da casa uma pequena estatueta do compositor, que até hoje enfeita a sala. O Guarani fazia parte da trilha sonora da infância e sua abertura ecoava frequentemente na introdução de A Voz do Brasil.

Vieram ainda Villa-Lobos, que fez o Brasil cantar em linguagem universal, e Ernesto Nazareth, cuja elegância musical continua encantando gerações.

Hoje percebo que uma questão de concurso jamais perguntou apenas quem era Rachmaninoff.

Ela perguntou, sem que eu percebesse, se eu estava disposto a abrir uma nova janela para a vida.

A cultura chega até nós pelos caminhos mais inesperados. Às vezes vem por um livro, por uma conversa, por uma música esquecida na memória. Outras vezes, surpreendentemente, surge na folha de uma prova.

O importante é reconhecer esses convites silenciosos que a história nos oferece. Cada oportunidade de aprender amplia nossos horizontes, enriquece o espírito e nos torna mais humanos.

O verdadeiro conhecimento não consiste apenas em responder corretamente a uma pergunta. Consiste em permitir que ela transforme, para sempre, a nossa maneira de enxergar o mundo.




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