Existe um piano aceso na memória do Brasil. Diante dele, um homem aproxima as mãos das teclas e encontra um jeito de fazer a madeira, as cordas e o silêncio sambarem. É assim que guardaremos Benito di Paula, que morreu neste domingo, 18 de outubro, aos 84 anos, em São Paulo.
Antes dos aplausos, houve o aprendizado de cantar para quem estava perto. O adolescente no Hotel Avenida, em Nova Friburgo; o jovem nas boates cariocas; o músico que levou sua esperança a Santos e a São Paulo. Podemos imaginar as conversas diminuindo diante daquela voz, enquanto alguém, numa mesa ao fundo, reconhecia na canção alguma coisa da própria vida.
Benito fez do piano um lugar de encontro. Suas mãos lhe deram uma linguagem percussiva particular, capaz de acolher o balanço do samba e a demora de uma emoção. Havia espaço para a festa e para quem chegasse trazendo uma tristeza que ainda não sabia contar.
Suas canções entraram nas casas brasileiras com essa intimidade. Ficaram nos discos, nas lembranças do rádio, nos encontros de família. Ao ouvi-las novamente, muita gente reencontra uma sala antiga, uma voz querida, um domingo que parecia não ter fim. A música guarda esses pequenos mundos e, por alguns minutos, permite que voltemos a habitá-los.
“Retalhos de cetim” permanece como uma dessas portas abertas. O título parece agora oferecer uma imagem para a nossa homenagem: cada ouvinte trazendo um pedaço de memória, uma noite de juventude, um amor, uma pessoa ausente. Juntos, esses retalhos formam o tecido afetivo que uma obra deixa entre nós.
Em “Charlie Brown”, o convite musical para conhecer o Brasil tinha a generosidade de quem puxava uma cadeira. Benito cantava como quem queria mostrar as belezas da casa, apresentar seus personagens e repartir o prazer de pertencer àquela paisagem.
Hoje, a cadeira diante do piano nos comove. Pensamos nas mãos, na voz, no trabalho de tantos anos; pensamos, sobretudo, na família, para quem a ausência tem um rosto cotidiano, muito além dos palcos.
Aos que o amaram de perto, nosso abraço. Ao artista, a gratidão pelas vezes em que uma canção sua encontrou palavras para o que sentíamos.
Descanse em paz, Benito di Paula.
Em algum lugar, alguém tornará a ouvir seu piano. Reconhecerá os primeiros acordes, fará silêncio por um instante e, com os olhos úmidos, começará a cantar.
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