Padre Mello e Padre Francisco: lembranças que se vestem de flores
Antes de haver flores diante do Santuário do Senhor Bom Jesus, houve um homem que as imaginou.
Raul Travassos olhou para aquele espaço e viu o que ainda não estava ali: duas cássias crescidas, oferecendo sua floração à paisagem da Matriz. Onde havia lugar para plantar, ele encontrou também uma maneira de agradecer. Uma árvore seria dedicada ao Padre Mello; a outra, ao Padre Francisco.
O gesto começou pequeno. Duas sementes no mesmo vaso, sob os mesmos cuidados. É emocionante pensar que aquelas árvores, hoje entregues ao céu e aos olhares de quem passa, já couberam juntas num recipiente. Antes de conhecerem o chão da praça, compartilharam a intimidade de um pouco de terra.
Cresceram lado a lado. Depois, levadas ao lugar definitivo, começaram a escrever sua história diante do Santuário.
Anos mais tarde, ao ver a floração noticiada por O Norte Fluminense, Raul reconheceu na paisagem a imagem que guardara desde o princípio:
“Linda! Era esse efeito mesmo que eu pensei quando as plantei aí.”
Há uma alegria particular nesse reencontro. O homem contempla a árvore e vê também a semente. Entre uma e outra, passaram-se dias de sol, chuvas, esperas, tantas horas em que a vida trabalhou silenciosamente. Aquilo que um dia existiu apenas em seu pensamento agora floresce à vista de todos.
Mas as cássias reservaram uma delicadeza ao seu idealizador. Embora nascidas juntas, no mesmo vaso, cada uma escolheu seu tempo: a dedicada ao Padre Francisco floresce primeiro; só mais tarde vem a floração da dedicada ao Padre Mello.
Imaginamos Raul acompanhando essa diferença com o afeto de quem reconhece particularidades em velhos amigos. Uma se adianta, abre suas flores, anuncia a estação. A outra demora um pouco mais, guarda por alguns dias o seu segredo. E assim a beleza se prolonga diante da igreja.
Os nomes dos dois sacerdotes permanecem ligados às raízes. Quem conhece a história poderá passar por ali e saudá-los em pensamento. Quem ainda não a conhece verá duas árvores floridas, e poderá sentir vontade de diminuir o passo, erguer os olhos, permanecer um instante.
Também nisso há generosidade. Raul plantou uma homenagem que oferece sua beleza até a quem desconhece os homenageados. A lembrança, nascida de um afeto particular, abriu os ramos para toda a cidade.
Diante do Santuário do Senhor Bom Jesus, as duas cássias continuam crescendo. Recebem a chuva sem pressa, atravessam os dias, preparam novas flores. Uma para o Padre Francisco. Outra para o Padre Mello.
E entre a primeira floração e a que chega depois, fica esse intervalo bonito, como uma pausa entre duas vozes queridas.
Raul imaginou as flores. A vida acrescentou a espera.

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