domingo, 1 de janeiro de 2012

A CONSELHEIRA DA LIBERDADE

Da Série Entrevistas de O Norte Fluminense



Dorcas de Paula Vieira nasceu na data de 24/10/1928, no distrito de Liberdade, que passou a denominar-se Carabuçu a partir do Decreto-lei Estadual no. 1056 de 31.12.1943. Filha de José Francisco de Paula, artesão, lavrador e comerciante, e Sebastiana Maria de Paula, do lar. Possui uma sobrinha, criada como filha: Jorgete de Paula Souza Monteiro, professora e presidenta da ONG OMDA(Organização Movimento das Águas). Foi colega, nos tempos de primário, do desembargador Antônio Izaías da Costa Abreu.


Casou-se no dia 16/09/1967 com Jorge Gomes Vieira, motorista da Empresa Brasil. Tornou-se viúva em 28/09/2002. É uma entre doze filhos, alem de ter tido uma irmã de criação.

Dorcas sempre pertenceu à família evangélica. Seu nome é bíblico, sendo referência no livro Atos dos Apóstolos do Novo Testamento como a única "discípula".

Sua paixão pelos estudos e pela arte vieram da influência de seu pai, que como artesão produzia artefatos de couro, balaios, peneiras, chicotes, entre outros. Para implementar seus estudos foi necessária "muita luta, sob sol e sob chuva".

Apos a conclusão do curso primário em Carabuçu, estabeleceu uma escola particular de alfabetização na casa de seus pais, no ano de 1940.

Em 1950, na época do governo do Coronel Portugal, passou a lecionar na região conhecida como Serra do Fogão, de difícil acesso. Foi seu primeiro serviço público. Enfrentou, contudo, o desafio, e após se deslocar a pé para o trabalho por vários dias, resolveu fixar residência na região, o que fez por cerca de 4 (quatro) anos. Foi na Escola Municipal de Fogão, outrossim, que sentiu na pele a primeira manifestação de preconceito racial. Uma mãe de alunos chegou a indagar: " Essa negra é quem vai dar aulas para meus filhos?". A resposta de Dorcas, contudo, foi seu agir. Com estratégia, apostou na convivência do dia-a-dia como modo de fazer com que a questionadora enxergasse que "todos somos iguais". Ao final, foi não apenas reconhecida mas como elogiada pela interpeladora.


Dorcas recorda-se ainda de um episódio em que foi designada pelo então prefeito Gauthier Figueiredo a representá-lo em uma solenidade em que esteve presente o Governador Amaral Peixoto. Em conversa com este e com vereadores disse que para que pudesse ter condições de se aprimorar no estudo, teria de mudar de trabalho para uma Escola mais próxima de Carabuçu. Segundo Dorcas, os intervenientes ficaram impressionados pelo fato dela ainda não ter concluído o Curso Normal, já que revelava ter conhecimento próprio de uma mestra. O fato, contudo, é que, logo depois, o pleito de Dorcas restou atendido e ela passou a trabalhar na Escola Marcílio Dias.

Dorcas resolveu estudar no Colégio Antonio Honório, em Bom Jesus do Norte (ES), entre os anos de 1954 e 1957. Foi aluna da 2a. turma da história do Colégio. Recorda-se que, na época, algumas pessoas diziam: "Você é doida". Tais pessoas também aconselhavam-na: " Arranja um rapaz, vai casar!". Mas Dorcas sentia em seu intimo uma determinação para seguir os estudos. "Meu objetivo era aumentar minha cultura e, assim, poder servir aos alunos, à comunidade e à Igreja" (Presbiteriana, na época), afirma ela.

Em 1958, Dorcas ingressou no Colégio Rio Branco para estudar no Curso Normal, concluindo-o em 1960. Recorda-se que sua média costumava estar em torno de "8,8", uma das melhores da turma. Foi aluna de Dona Carmita. Recorda-se da mestra como "grande diretora. Ela era zelosa pela causa, pela cultura... em tudo. Parecia uma mãe, uma mãezona brava... e tinha o manejo das classes". Para poder estudar no Colégio Rio Branco, Dorcas teve de mudar-se para Bom Jesus. Após concluir o Curso, contudo, retornou a residir em Carabuçu.

No retorno ao local de origem, Dorcas foi professora e diretora da Escola Noturna 19 de Abril, localizada nas dependências do Grupo Escolar Marcílio Dias. Dorcas estudou piano durante 4 (quatro) anos com Dona Nina, no Conservatório de Bom Jesus, a partir de 1977, aprendendo a parte teórica. Estudou pintura com Gaída, Rosa e atualmente é aluna da artista plástica Léa.

Dorcas aposentou-se em 1990 e foi uma das membros fundadoras do Instituto de Letras e Arte de Carabuçu (ILAC), em 1995, assumindo a Cadeira no. 18, patronímica de Maria Joaquina Sabina, conhecida como Chara. É, atualmente, membro da 1a. Igreja da Assembléia de Deus.

Ao final da entrevista, Dorcas deixou uma mensagem para os jovens: "Estudem, lutem pela vida, lutem pela cultura. Sempre procurem coisas nobres e boas, para que o mundo se torne melhor cada vez mais".


Na parede da sala, onde ocorreu a entrevista, em Bom Jesus do Itabapoana, há um quadro pintado por Dorcas. A paisagem refere-se à casa onde nasceu, onde morou com seus pais e seus irmãos e onde instalou sua primeira escola. Por outro lado, no portão da garage da casa, está fixado um "comunicado". A jovem Laís Monteiro anuncia aulas em sua residência, tal como ela o fez há 71 (setenta e um anos atrás) anos atrás.

Se a Dorcas bíblica deixou exemplo de vida ajudando os que padeciam necessidade, cuidando de órfãos e viúvas, a Dorcas da Liberdade se dedica a aconselhar todos os que necessitam de atenção e carinho. A primeira costurava roupas, a segunda costura sonhos. Não há apenas coincidência em seus nomes.

VOCÊ SABIA (1)?

Carabuçu é uma palavra portuguesa que significa carabina pequena(cf. www.google.com.br).

VOCÊ SABIA (2)?

Marcílio Dias foi marinheiro da Armada Imperial brasileira, herói da Batalha Naval do Riachuelo, durante a Guerra da Tríplice Aliança. Quando a corveta Parnaíba onde se encontrava foi abordada por três navios paraguaios, travou uma luta corpo a corpo contra quatro inimigos, armado de sabre, abatendo dois deles, mas vindo a ter seu braço decepado na defesa da bandeira do Brasil. Os ferimentos sofridos causaram-lhe a morte no dia seguinte, 12 de junho, sendo sepultado com as honras do cerimonial marítimo nas próprias águas do rio Paraná, em 13 de junho de 1865

(PUBLICADA NA EDIÇÃO DE 14 DE OUTUBRO DE 2011)

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