A floresta ainda guardava a noite. Nas folhas caídas, o orvalho demorava-se como se também ele tivesse alguma dificuldade em partir. Entre os troncos brancos das bétulas, a névoa escondia as distâncias, e a manhã procurava passagem.
Ela entrou pelo caminho sem afastar os ramos baixos. Conhecia aquele lugar. Sabia onde a terra cedia sob os passos, onde uma raiz atravessava a trilha, onde as árvores se abriam para um pequeno trecho de céu. A bainha do vestido escuro tocava as folhas úmidas. De vez em quando, ajeitava o xale sobre os ombros e prosseguia.
Havia muitos anos, percorrera aquele caminho acompanhada. Naquele tempo, quase não reparava no ruído das próprias pisadas. A conversa ocupava a floresta; uma voz lhe chamava a atenção para um pássaro, uma pedra, um ramo partido. Agora ouvia coisas que antes passavam despercebidas: a água pingando de uma folha, o estalo de um graveto, o vento começando longe.
Um raio de sol atravessou a névoa e iluminou um pedaço do chão. Ela parou.
Lembrou-se de um rosto. Não como nas fotografias, imóvel e voltado para a câmera, mas inclinado numa risada, distraído diante de uma janela, adormecido no fim de uma tarde. Durante muito tempo, tivera medo de esquecer esses pequenos movimentos. Esforçava-se para recuperá-los, sofria quando algum detalhe lhe escapava. Naquela manhã, porém, a lembrança chegara inteira, sem que precisasse procurá-la.
Sorriu, e o sorriso lhe trouxe lágrimas.
Nos primeiros anos da ausência, qualquer beleza parecia incompleta. Ao ver alguma coisa que a comovia, virava-se por um instante, pronta para compartilhar a descoberta. Depois vinha o gesto interrompido, o silêncio, a realidade entrando outra vez pela mesma ferida.
Ainda lhe acontecia. Mas agora conseguia permanecer diante do que era belo.
A luz desapareceu do caminho. Ela continuou a olhar para aquele ponto, onde as folhas haviam retomado sua cor escura. Pensou nas tantas manhãs que tinham vivido sem lhes dar importância. O café servido, uma pergunta feita de outro cômodo, a espera junto à porta. Como fora possível que tanta felicidade coubesse em coisas tão discretas?
Apertou o xale contra o peito e voltou a caminhar.
O dia avançou entre as bétulas. Em alguns trechos, a névoa se desfez; em outros, permaneceu presa às árvores. Ela chegou ao lugar onde costumavam descansar e se sentou. Ficou ali por algum tempo, com as mãos sobre o colo, deixando que as lembranças viessem na ordem que quisessem.
Ao levantar-se, tocou o tronco branco ao seu lado. A casca estava fria.
Quando tomou o caminho de volta, a tarde já perdia claridade. Algumas folhas se desprenderam e caíram perto de seus pés. Ela acompanhou uma delas até o chão e, por um breve instante, teve vontade de contar a alguém como fora bonito vê-la cair.
Dessa vez, não conteve a frase.
Disse-a baixinho, enquanto caminhava, e levou consigo o conforto de reconhecer, na própria voz, a intimidade de tantos anos.

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