quinta-feira, 21 de maio de 2015

SESSÃO DO ILA REVELA FATO HISTÓRICO DESCONHECIDO DA HISTORIOGRAFIA







                    Foto: Darci Boniolo

Foto histórica: Guido Nunes Rezende e Maria Apparecida Dutra Viestel, netos respectivamente do 2º e 1º prefeitos de Bom Jesus do Itabapoana. Atrás,  Angélica Dutra, filha de Maria Apparecida
                                                                                                             

A segunda reunião histórica realizada no dia 25 de abril passado, organizada pelo ILA (Instituto de Letras e Artes Dr. José Ronaldo do Canto Cyrillo), que é presidido pela dra. Nísia Campos, trouxe ao público, além dos fatos e personagens de nossa primeira emancipação, implementada em 25 de dezembro de 1890, informação sobre fato que não consta na historiografia. 
 
                                                                                 Foto: André Luiz de Oliveira
Descendentes do Secretário e dos Intendentes do 2º Conselho de Intendência: Ana Maria da Graça Fragoso do Carmo Ribeiro, Elenízia Lengruber, Maria Tereza Medeiros, Guido Nunes Rezende, Ana Clara Fragoso de Castro Moreira, Lena Rodrigues do Carmo e Maria Cristina Borges

Segundo Guido Nunes Rezende, neto do Cel. Luiz Vieira de Rezende, seu avô protegeu o futuro presidente do Brasil, Nilo Peçanha, da perseguição das forças do Império, em meados de abril de 1889, em sua fazenda em Calheiros.


 Fazenda Boa Fortuna, do Cel. Luiz Vieira de Rezende, em Calheiros, onde Nilo Peçanha teria se refugiado da perseguição das forças do Império em 1889 (foto de 1928. Acervo de Moacyr Teixeira de Rezende)

SESSÃO DO ILA REVELA  FATO HISTÓRICO DESCONHECIDO  DA HISTORIOGRAFIA

                                                                  Fotos: André Luiz de Oliveira
Guido Nunes Rezende



A segunda reunião histórica realizada no dia 25 de abril passado, organizada pelo ILA (Instituto de Letras e Artes Dr. José Ronaldo do Canto Cyrillo), que é presidido pela dra. Nísia Campos, trouxe ao público, além dos fatos e personagens de nossa primeira emancipação, implementada em 25 de dezembro de 1890, informação sobre fato que não consta na historiografia. 

Segundo Guido Rezende, neto do Cel. Luiz Vieira de Rezende, seu avô protegeu o futuro presidente do Brasil, Nilo Peçanha, da perseguição das forças do Império, em meados de abril de 1889, em sua fazenda em Calheiros.

Em matéria anexa, intitulada AS GARRAFADAS DE LAJE, O NORTE FLUMINENSE aprofunda a discussão sobre a revelação de Guido Rezende.


A série de sessões históricas promovidas pelo ILA objetiva resgatar fatos e personagens relativos às duas emancipações de Bom Jesus do Itabapoana. A  1ª emancipação ocorreu entre os dias 25 de dezembro de 1890 e 8 de maio de 1892. 

Na reunião do dia 27 de março passado, a mesma focalizou o 1º Conselho de Intendência, que funcionou entre os dias 25 de dezembro de 1890 e 12 de dezembro de 1891. O colegiado teve como presidente, Pedro Gonçalves da Silva Jr., conhecido como Cel. Pedroca. O presidente exercia, também, a função equivalente à de prefeito. Foram mencionados, ainda, os demais intendentes que exerceram as funções equivalentes aos cargos dos  vereadores: Cel. Luiz Vieira de Rezende, Manoel Antônio de Azevedo Mattos, Joaquim Teixeira da Siqueira Reis e Capitão Francisco de Teixeira de Siqueira, além do secretário da Intendência, José Cândido Fragoso.

Após as renúncias do presidente Marechal Deodoro da Fonseca, do governador Francisco Portela e dos integrantes do 1º Conselho de Intendência, o novo governador do estado do Rio de Janeiro, comandante Baltazar da Silveira, nomeou os membros do 2º Conselho no dia 7 de janeiro de 1892, tendo os mesmos tomado posse no dia 15 de janeiro. O novo colegiado teve como presidente o Cel. Luiz Vieira de Rezende, que foi, portanto, o 2º prefeito de Bom Jesus do Itabapoana. Os demais intendentes nomeados foram João de Souza Rodrigues, Ricardo da Costa Soares, Francisco Boechat e João Pedro Lengruber, somando-se ao colegiado Joaquim Sérgio Bastos. João Cândido Fragoso foi indicado como o novo secretário.

No dia 8 de maio de 1892, o governador José Thomaz Porciúncula editou o Decreto nº 01, que retirou a autonomia de nosso município, anexando-o ao de Itaperuna. 


O DIA DA REVOLTA BONJESUENSE


Este ato de Porciúncula foi imediatamente rechaçado pelos bonjesuenses que se revoltaram contra a medida, não aceitando a perda da autonomia e a subordinação a Itaperuna.

No dia 20 de junho de 1892, os bonjesuenses reuniram-se em uma das salas onde funcionou a Intendência,  e onde está situado atualmente o Big Hotel, e deliberaram que Itabapoana, nome anterior de nossa circunscrição administrativa, continuaria a ser município, mesmo contra o ato oficial do governador. 

Em seguida, nomearam os novos integrantes do 3º Conselho de Intendência. O mesmo ficou constituído assim:  João de Souza Rodrigues, José Boechat, João Pedro Lengruber, Carlos de Aquino Xavier, Severino Teixeira de Oliveira, Cel. Luiz Vieira de Rezende e Antônio Simplício de Salles. Foi nomeado Antônio Antunes de Siqueira como secretário

A rebelião bonjesuense durou cerca de um ano. O 3º Conselho de Intendência funcionou até o dia 15 de julho de 1893.



 A SESSÃO HISTÓRICA 
                                                                                                  



Abrindo o evento, nas dependências do plenário da Câmara Municipal, dra. Nísia Campos anunciou a homenagem aos intendentes que compuseram o 2º Conselho de Intendência.

Dra. Nísia Campos ladeada por Rubem Oliveira, presidente do ILAC (Instituto de Letras e Artes de Carabuçu) e o Sargento Jailson Alves, do Tiro de Guerra


Estiveram presentes ao evento descendentes dos  intendentes  Cel. Luiz Vieira de Rezende, Francisco Boechat, João de Souza Rodrigues, Joaquim Sérgio Bastos, João Pedro Lengruber, Ricardo da Costa Soares e do secretário João Cândido Fragoso.



O palestrante da noite foi Guido Nunes Rezende,  neto do Cel. Luiz Vieira de Rezende. Ele é filho de Ulisses Vieira de Rezende e Maria Augusta Nunes Vieira.

Segundo Guido, "o português João Rezende Costa, originário da Ilha de Faiol, no Arquipélago de Açores, foi quem trouxe a família Vieira de Rezende para o Brasil no século XVIII.

José Rezende Costa, filho de João Rezende Costa, foi inconfidente e braço direito de Tiradentes. O filho de José Rezende Costa, com o mesmo nome do pai, acompanhou-o no movimento libertário.

Pai e filho foram presos e deportados perpetuamente para a África, por ato de Maria, a Louca. Foram embarcados na Fragata denominada Golfinho. Por causa disso, a esposa de José Rezende Costa (pai), Helena Maria de Jesus, resolveu manter as cerca de 20 janelas de sua fazenda Engenho Velho dos Cataguás, em Lagoa Dourada (MG), fechadas indefinidamente. Ele foi deportado para Bissau, falecendo no continente africano.

 José Rezende Costa, o filho, casado com Anna Alves Preto, foi deportado para Cabo Verde, onde chegou a ocupar cargos relevantes neste país africano. Com a proclamação da independência, D. Pedro I lavrou um indulto, razão pela qual José Rezende Costa retornou ao país, fixando-se em Minas Gerais.


Meu avô Cel. Luiz Vieira de Rezende era tetra neto de José Rezende Costa (pai). Casou-se  com Augusta Amélia, em 1860, em São João Nepomuceno (MG). Ele era jovem quando, juntamente com o tio Major Vieira e o Cel. José Vieira, tiveram participação de destaque na criação do município mineiro de Cataguases, cujo nome foi dado por influência do Cel. José Vieira.

Mudou-se, depois, para a Fazenda Boa Fortuna, em Calheiros. Foi a partir daí que lutou pela causa republicana. Em meados de abril de 1889, por ocasião de uma conferência sobre a república em Laje do Muriaé (RJ), com a presença de Nilo Peçanha, forças do Império atacaram o prédio onde ocorreria o evento. Nilo Peçanha foi ferido. Meu avô escondeu-o na Fazenda Boa Fortuna. 
As tropas imperiais chegaram à Fazenda procurando por ele. Meu avô, contudo, só permitiu a entrada do comandante e informou a este que Nilo Peçanha não estaria na fazenda. Após aguardar dez dias, e ter certeza que a tropa monarquista não se encontrava na região, Nilo pôde sair da Fazenda. 

Meu avô foi eleito, posteriormente, no dia 10 de maio de 1889, para a primeira Câmara de Vereadores de Itaperuna (RJ) com maioria republicana, em pleno império.

Juntamente com Pedro Gonçalves da Silva Jr., o Cel. Pedroca, arquitetaram a primeira emancipação de Bom Jesus do Itabapoana.

O Cel. Luiz Vieira exerceu a presidência do 2º Conselho de Intendência, cargo equivalente ao de prefeito, entre 7 de janeiro de1892 e 8 de maio de 1892, quando ocorreu o fim da emancipação. Mesmo abalado, meu avô continuou, contudo, na luta por Bom Jesus. 

Juntamente com seus irmãos, construíram a Ponte dos Vieira, que liga Calheiros a São José do Calçado (ES), que permitiu a escoação do café para as terras capixabas.

Após 65 anos de casamento, minha avó faleceu na Fazenda Boa Fortuna. Depois, meu avô declarou ao ao jornalista Osório Carneiro, de A Voz do Povo: 'Não compreendo a vida sem estar ao lado de minha esposa'. Ele faleceu em 1943. Foi um homem que viveu e lutou com idealismo pela construção de um mundo com liberdade e desenvolvimento", finalizou.


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Alunos do Centro Educacional Santa Rita de Cássia e do Colégio Estadual Padre Mello se fizeram presentes. A noite histórica contou, ainda, com apresentação magistral de Issacar Newton, ao violino, e Thadeu Almeida, no órgão.  

Alexis Delaine, presidente do Conselho Municipal de Educação, registrou a importância da atuação do ILA, através da dra. Nísia Campos, no aprimoramento cultural de nosso município.

A presidente do ILA distribuiu, então, livreto concernente ao 2º Conselho de Intendência, que foi autografado pelos descendentes dos intendentes.

Dra. Nìsia Campos manifestou sua alegria em poder estar contribuindo para o resgate da história de Bom Jesus do Itabapoana. Informou, ainda, que "o ILA completará 20 anos no dia 11 de agosto, enquanto o ILAC completará a mesma quantidade de anos em dezembro". Convidou todos, ao final, a entoarem a tradicional canção "Rio de minha terra", juntamente com o violonista Amílcar Gonçalves, o Mão de Ouro, e Ana Maria Teixeira Baptista. A música é de autoria da própria Ana Maria e seus pais Oliveiro Teixeira e Tertuliana Simão Teixeira (Zita). Após a apresentação que emocionou a todos,  o evento teve o encerramento com o tradicional coquetel e confraternização.


Thadeu Almeida e Issacar Newton: momentos sublimes

Alunos do Centro Educacional Santa Rita de Cássia e do Colégio Estadual Padre Mello marcaram presença no evento
                                                                                             Foto: Darci Boniolo
Gino Bastos entregou exemplares da edição nº 2288 de O Norte Fluminense, que contém a reportagem sobre a sessão de 27 de março, aos descedentes dos intendentes, a pedido de dra. Nísia Campos


Livreto sobre o 2º Conselho de Intendência foi distribuído pelo ILA



Descendentes dos Intendentes e do Secretário do 2º Conselho autografaram o livreto editado pelo ILA

Amílcar Gonçalves, o Mão de Ouro, e Ana Maria Teixeira interpretaram, acompanhados pelo público presente, Rio de Minha Terra, composição tradicional, de autoria de Ana Maria e seus pais. Atrás, profª Lisângela Nunes da Fonseca Rabelo, vereador Clerinho da Soledade e vice-prefeito Jarbas Borges


RIO DE MINHA TERRA

Letra: Oliveiro Teixeira
Música: Tertuliana Simão Teixeira (Zita) e Ana Maria Teixeira Baptista


Itabapoana majestoso
Que banha a minha cidade
Vai caminhando sinuoso
Levando a minha saudade

Nasce no Caparaó, a grande serra,
Banha Rosal e suas rosas perfumadas
Forma a cachoeira da Fumaça e a do Inferno
Sempre brilhando sob as noites enluaradas.

Vai caminhando para o seu destino
Que ao Oceano conduz
Leva consigo mágoas e tristezas
Do povo de Bom Jesus.





Dra Nìsia Campos: resgate da História Política de Bom Jesus do Itabapoana


 OS DESCENDENTES DOS INTENDENTES



Descendentes do intendente Cel. Luiz Teixeira de Rezende: Moacyr Teixeira de Rezende, Guido Nunes Rezende, José Luiz Rezende do Carmo,  Iago,  Maria Alice Rezende, Cristina de Fátima Moraes Borges e Maria Cristina Borges Carrereth


Descendentes do intendente João de Souza Rodrigues: Cristina de Fátima Moraes Borges (descedente também do Cel. Luiz Vieira de Rezende), Lena Rodrigues do Carmo, Nicolas da Silva Rodrigues, Ana Claudia Pacheco de Oliveira do Carmo, Brian Pacheco Rodrigues do Carmo e Analina Pacheco Rodrigues do Carmo


Maria Cristina Borges representou os descendentes do intendente Joaquim Sérgio Bastos

Maria da Glória Silva Souza representou os descendentes do intendente Francisco Boechat



Descendentes de intendente João Pedro Lengruber: Elenízia Lengruber, Elenice Lenbruber e Luci Lengruber


Descendentes do intendente Ricardo da Costa Soares: Ana Clara Fragoso de Castro Moreira e Ana Maria da Graça Fragoso do Carmo



Descendentes do secretário João Cândido Fragoso: Maria Cristina Borges Carrerete, Ana Maria da Graça Fragoso do Carmo e Osvaldo Ribeiro


AS GARRAFADAS DE LAJE




Guido Nunes Rezende

deA informação de Guido Rezende de que seu avô teria acolhido Nilo Peçanha em sua Fazenda Boa Fortuna, em Calheiros, após o mesmo ser perseguido por forças do Império, alude ao episódio conhecido como Garrafadas de Laje, ocorrido em Laje do Muriaé (RJ) em 16 de abril de 1889, mas não consta da historiografia. 



Segundo o livro A Vida de Nilo Peçanha, escrito por Brígido Tinoco, "Em Laje do Muriaé, no Norte da Província (Nilo Peçanha) é apedrejado e agredido em praça pública. Sangrando, foge a cavalo e vai pensar os ferimentos em Arrozal de Santana, hoje distrito de Arrozal, em Bom Jesus do Itabapoana" (pág. 23, Livraria José Olympio Editora, 1962).

Hotel (direita) de Laje do Muriaé onde ocorreria a Conferência sobre a República em 1889 e a praça onde Nilo Peçanha teria sido agredido (acervo de Maria Clara Diniz Ligiéro)

O relato de Guido Rezende está em harmonia com o que consta na biografia de Nilo Peçanha. A uma, porque é pertinente ponderar sobre a aptidão de um coronel, como Luiz Rezende, a realizar uma proteção desta natureza. A duas, porque a Fazenda Boa Fortuna, em Calheiros, está localizada no trajeto para Rosal, onde havia os meios de promover a cura das feridas do futuro presidente.

 Fazenda Boa Fortuna, em Calheiros, onde Nilo Peçanha teria se refugiado da perseguição das forças do Império. Foto das bodas de ouro do Cel. Luiz Vieira de Rezende em 1928 (acervo de Moacyr Teixeira de Rezende)


Rua e prédio da prefeitura de Laje do Muriaé foram construídos no local onde funcionou o hotel da Conferência sobre a República.

Hoje, ruína da parede do casarão (esquerda), com cerca de 50 m, é o que resta da sede da Fazenda Boa Fortuna, com suas palmeiras imperiais


Rui Barbosa comparou o episódio das Garrafadas de Laje com a Noite das Garrafadas que marcou o fim do primeiro reinado: "As garrafas da Laje de Muriaé em abril de 1889 renovam as garrafadas da Corte em março de 1831, que pressagiaram o fim desastroso do primeiro reinado. É como o eco das vésperas de uma revolução, anunciando, talvez, as vésperas de outra, se a coroa for surda aos sinais do tempo" (apud A República consentida: cultura democrática e científica do final do Império, de Maria Tereza Chaves de Mello)

Nilo Peçanha( do  livro "Política, Economia e Finanças", organizado por Andréa Telo da Corte, Museu do Ingá. 2010)

Segundo Guido Rezende, a informação relatada por ele era frequentemente contada por seu pai e seu tio Álvaro Rezende. 



Para Maria Beatriz Silva, presidente do CCMB (Centro Cultural Maria Beatriz) e diretora da Casa de Cultura de Laje do Muriaé, " a revelação de Guido Nunes Rezende é fato novo que está, realmente, em uma linha de razoabilidade com o que consta na biografia de Nilo Peçanha e com o que escreveu Rui Barbosa. Ocorre que há duas outras obras, uma escrita por Major Porphirio Henriques, intitulada "Terra da Promissão", e outra nomeada "Há Mais de Meio Século" de H. M. Caspary, ambos lajenses, que relatam o episódio das Garrafadas da Laje de outro modo. Por este motivo, pretendemos aproveitar esta revelação de Guido Rezende e realizarmos uma conferência para, discutindo este tema, possamos também dar início ao resgate da história de Laje do Muriaé", assinalou.


Maria Beatriz Silva e a foto de época do hotel onde ocorreu a Conferência sobre a República, em Laje do Muriaé: "é necessário resgatar esta história"



As sessões históricas do ILA abrem as portas, portanto, não apenas para o passado de nosso município, mas de toda a região e do país. 













 













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