quarta-feira, 28 de outubro de 2026

De Moscou a Samarcanda, a eternidade de um lance de Xadrez

 


Houve um tempo em que os tabuleiros pareciam conduzir a Moscou. Nas salas de torneio, os grandes mestres soviéticos chegavam acompanhados de uma reputação que, por vezes, se sentava à mesa antes deles. O adversário precisava enfrentar as peças e também a memória de partidas que estudara desde menino.

Botvinnik construía suas posições com a paciência de um engenheiro. Smyslov procurava a harmonia. Tal abria, no meio da lógica, uma passagem para o espanto. Petrosian escutava o perigo antes que ele adquirisse forma. Karpov restringia lentamente o espaço do adversário, enquanto Kasparov parecia querer alargar os limites do próprio tabuleiro.

Reuni-los sob a expressão “escola soviética” ajuda a compreender uma época, mas não esgota o mistério daqueles homens. Havia método, estudo e uma poderosa estrutura de formação. Havia também temperamentos inconciliáveis, maneiras singulares de sentir o tempo e reconhecer a beleza.

Agora, quando os grandes mestres do Uzbequistão se inclinam sobre as peças, alguma coisa daquela lembrança desperta.

Nodirbek Abdusattorov, Javokhir Sindarov, Nodirbek Yakubboev e seus companheiros pertencem a uma geração que devolveu à Ásia Central um lugar de destaque no xadrez. Na concentração de seus rostos, o espectador pode reconhecer a antiga seriedade de quem sabe que uma casa enfraquecida continuará ali, esperando para ser cobrada.

A comparação exige delicadeza. Seria precipitado procurar um novo Tal em cada sacrifício de Sindarov ou enxergar um novo Karpov em cada final conduzido por Abdusattorov. Os jovens uzbeques têm partidas próprias para jogar. Mas certas afinidades atravessam as décadas: a preparação profunda, a disposição para sustentar posições difíceis, o entendimento de que uma equipe se fortalece quando cada jogador assume a responsabilidade pelo seu pequeno território de sessenta e quatro casas.

Há também uma ligação histórica. O Uzbequistão integrou a União Soviética, e sua cultura enxadrística guarda marcas dessa convivência. Essa herança encontrou expressão própria em Rustam Kasimdzhanov, campeão mundial da Fide em 2004, uma referência entre as gerações.

Os jovens de hoje, porém, estudam em outro mundo. Os antigos mestres carregavam cadernos, livros gastos e variantes discutidas durante horas. Seus sucessores consultam bases de milhões de partidas e máquinas capazes de descobrir recursos que escaparam a gerações inteiras.

Ainda assim, chega o momento em que a preparação termina.

O jogador ergue os olhos, observa o relógio e precisa decidir. Nenhum arquivo sente por ele o peso daquele instante. Nenhuma máquina pode assumir sua coragem.

É aí que Moscou e Samarcanda se aproximam.

Sob as cúpulas azuis da cidade uzbeque, podemos imaginar um menino refazendo uma combinação de Tal. Ele move o bispo, hesita diante de um sacrifício, volta as peças. Por alguns minutos, conversa com um homem que nunca conheceu. Depois fecha o livro e sai para jogar sua própria partida.

É assim que uma tradição permanece viva: nas mãos de quem a recebe e encontra algo a acrescentar.

Os lendários soviéticos deixaram posições que ainda nos ensinam a olhar. Os grandes mestres uzbeques começam a deixar as suas. Entre uma geração e outra, o tabuleiro conserva o silêncio, à espera daquele lance que fará todos se inclinarem um pouco mais sobre as peças.


Nenhum comentário:

Postar um comentário