quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Mequinho: a grandeza de um rei brasileiro

 

O apelido parecia pequeno para o tamanho do destino



Mequinho. Um nome de intimidade, desses que nascem dentro de casa e conservam, pela vida inteira, alguma coisa da infância. Quem o ouvisse sem conhecer sua história talvez imaginasse um menino chamado para o almoço, interrompendo uma brincadeira no quintal. E havia, de fato, um menino. Mas, diante dele, as peças de xadrez começavam a revelar caminhos que poucos homens no mundo seriam capazes de enxergar.

Henrique Costa Mecking cresceu e levou consigo aquele nome afetuoso. Com ele, o Brasil entrou em salas onde o silêncio tinha sotaques estrangeiros e os adversários traziam a experiência de grandes escolas enxadrísticas. Em 1972, tornou-se o primeiro brasileiro a conquistar o título de Grande Mestre Internacional. O país passava a ter um lugar entre aqueles que faziam do pensamento uma arte de precisão.

É preciso imaginar o que isso representava.

Numa terra acostumada a acompanhar a bola sobre a grama, um jovem nos convidava a olhar para um tabuleiro. Ali também havia risco, beleza, expectativa. Um peão avançava e deixava atrás de si uma fraqueza irreparável. Um cavalo encontrava passagem entre peças que pareciam imóveis. Às vezes, a vitória começava num lance discreto, cujo significado só se revelaria muito depois.

Mequinho ensinou muita gente a esperar por essa revelação.

Nos anos 1970, alcançou o terceiro lugar no ranking mundial. Apenas dois jogadores estavam à sua frente naquela classificação. É um desses feitos que merecem ser pronunciados devagar, para que o costume não lhes diminua a grandeza: um brasileiro chegou a ser o terceiro melhor enxadrista do planeta.

Para quem acompanhava de longe, pelas notícias dos jornais, havia orgulho em reconhecer seu nome entre os gigantes. Mequinho carregava uma esperança brasileira para além das fronteiras. Cada resultado fazia chegar até nós a notícia de que aquele rapaz podia enfrentar os melhores e obrigá-los a procurar, durante horas, uma resposta.

Gostamos de imaginar um leitor abrindo o jornal numa cidade do interior e detendo os olhos sobre uma de suas vitórias. Pode ser que houvesse um tabuleiro guardado no armário. Talvez alguém o retirasse, limpasse a poeira e chamasse um filho para aprender.

A dimensão de um grande mestre também se mede por esses gestos que ele nunca chegou a conhecer.

Por isso, exaltar Mequinho é falar do maior nome da história do xadrez brasileiro e também de uma presença que ultrapassou os torneios. Seu talento deu ao jogo um rosto próximo, um nome que se podia dizer com carinho. O menino prodígio tornara-se um homem capaz de levar o Brasil ao alto, e o país continuava a chamá-lo como se ele ainda morasse na casa ao lado.

Sua trajetória conheceu o sofrimento, os afastamentos e o amparo da fé. A vida lhe apresentou dificuldades que nenhum cálculo sobre o tabuleiro poderia antecipar. E essa dimensão humana torna sua história ainda mais comovente: por trás das partidas que atravessam o tempo, existe alguém que precisou encontrar forças para seguir.

Os anos passam. Surgem novos campeões, novas maneiras de estudar, máquinas que examinam milhões de possibilidades. Ainda assim, basta mencionar Mequinho para que uma época se acenda na memória do nosso xadrez.

Lá está ele outra vez, inclinado sobre as peças.

O relógio trabalha. O adversário espera. Há um lance a descobrir.

E nós, brasileiros, continuamos perto, acompanhando aquele menino de nome pequeno que encontrou um lugar entre os gigantes.


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