Por Gino Martins Borges Bastos
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| Mauro Borges Alvarenga e Maria Aparecida Borges de Rezende |
Em 2013, entrevistei Mauro Borges Alvarenga. Dei àquela conversa o título de “O filho vencedor da Braúna”. Hoje, ao percorrer novamente suas lembranças, detenho-me numa imagem: um menino descalço, levando jornais pelas ruas de Bom Jesus do Itabapoana.
Debaixo do braço, as notícias da cidade. Dentro do peito, uma ausência que nenhuma notícia poderia remediar.
Mauro perdera a mãe aos cinco anos. Existem despedidas que chegam antes de a infância aprender o significado da palavra adeus. A criança continua crescendo, muda de casa, conhece outros caminhos, mas conserva em algum lugar de si a espera por um carinho interrompido. A saudade mais funda é essa: a de quem ainda tinha tão pouco tempo de mundo e já precisava aprender a viver sem a mãe.
Nascido em Braúna, em 6 de janeiro de 1935, Mauro atravessou a infância entre os cuidados da irmã, a convivência com o pai e o acolhimento dos tios. Sua história foi encontrando abrigo em diferentes casas, até que, aos catorze anos, chegou à de seu padrinho, Osório Carneiro.
Ali, nas oficinas de A Voz do Povo, o menino começou a trabalhar com aquilo que preserva os homens do desaparecimento: a palavra.
“Eu entregava o jornal descalço”, contou-me.
A frase ficou. Existem confissões que dispensam explicações. Nela cabem a dificuldade daqueles dias, o chão sob os pés, a responsabilidade precoce e a dignidade de quem saía para trabalhar. Enquanto os leitores abriam as páginas para conhecer os acontecimentos, um menino lhes entregava, silenciosamente, uma pequena parte de sua própria vida.
Depois, vieram os tipos, as composições, o trabalho paciente das oficinas. Mauro aprendeu a reunir letras para que o pensamento dos outros pudesse chegar ao papel. Imagino a delicadeza desse ofício: procurar cada sinal, respeitar os espaços, acomodar as palavras, preparar a página. Antes de circular pelas ruas, o jornal passava por mãos que quase nunca apareciam nele.
As mãos de Mauro estavam entre elas.
Em sua memória, porém, as oficinas guardavam muito mais que trabalho. Guardavam o espírito brincalhão de Athos Fernandes, as exigências de Octacílio de Aquino, a presença de Ésio e Luciano Bastos, as histórias dos companheiros. O tempo não levara as vozes. Bastava uma pergunta para que elas voltassem, acompanhadas de um sorriso.
E lá estava Golinha, de vigia enquanto os tipógrafos aproveitavam uma pausa para cochilar. Preparara uma brincadeira para José Russo e acabou agarrando o pé de Luciano Bastos, que subia a escada.
“Até você, compadre?”
A exclamação atravessou os anos. Naquela conversa de 2013, a velha escadaria parecia receber novamente os passos, o susto e o riso. Também assim uma cidade permanece viva: na lembrança de uma tarde de trabalho em que alguém fez os outros rirem.
Mauro levou seu ofício a Três Rios. Foram dois dias de viagem até o teste que lhe abriria uma nova oportunidade. O menino que entregara jornais descalço tornara-se um profissional capaz de conquistar espaço longe de casa. Trabalhou, fez amigos, jogou futebol, recebeu reconhecimento. Quando voltou a Bom Jesus, trouxe consigo a experiência de quem descobrira que podia seguir adiante.
A vida ainda lhe reservaria outros balcões, outras responsabilidades. Acompanhou a esposa, professora, a Divino de São Lourenço. Trabalhou no comércio em Apiacá. E encontrou em Sílvio Figueiral Ribeiro uma dessas pessoas que nos enxergam com uma confiança que ainda não aprendemos a ter em nós mesmos.
Diante da possibilidade de assumir a loja, Mauro hesitou. Não entendia de administração, disse.
Sílvio conhecia nele uma qualidade decisiva: sabia lidar com o público.
Há um saber que se aprende prestando atenção às pessoas. Reconhecer quem chega, ouvir um pedido, cumprir a palavra, merecer uma volta. Mauro conquistou fregueses com esse aprendizado feito de convivência. A loja cresceu, e a gratidão permaneceu. Ao recordar Osório Carneiro e Sílvio Figueiral, sua emoção mostrava quanto os dois continuavam presentes em sua caminhada.
Mas era ao falar da família que sua voz parecia chegar a casa.
Maria Aparecida Borges de Rezende, com quem se casara em 1961, ocupava o centro desse reconhecimento. “Minha esposa mudou minha vida”, afirmou. Havia naquela declaração a simplicidade das verdades amadurecidas durante muitos anos: a companhia nos dias difíceis, as decisões partilhadas, a coragem que um oferece ao outro quando o caminho pesa.
Ao lado dela, Mauro construíra uma família. Falava com orgulho da filha Maurelisa, do genro Jorge Elias e da neta Stephanie. A lembrança do filho Carlos Alberto, já falecido quando conversamos, também integrava aquela história de amor, com a dor que certas ausências deixam para sempre à mesa da família.
“Tudo foi difícil”, reconheceu Mauro, com os olhos marejados.
A dificuldade não perdera seu peso. Mesmo depois de tantos anos, havia lembranças que ainda pediam uma pausa. Esperei. Às vezes, numa entrevista, o silêncio guarda com mais fidelidade aquilo que uma pessoa está tentando nos dizer.
Então ele voltou a falar dos seus. E compreendi melhor o título que dera àquela conversa.
O filho vencedor da Braúna carregava suas perdas, seus esforços e os nomes de quem lhe estendera a mão. Olhava para a família com a emoção de quem sabia quanto custara chegar até ali. Seu maior tesouro tinha rostos, vozes, histórias compartilhadas.
Guardo ainda a imagem daquele menino levando jornais. Ele seguia pelas ruas sem saber quantas mudanças o aguardavam, quantas letras passariam por seus dedos, quantas pessoas se tornariam parte de sua vida.
Muitos anos depois, sentado diante de mim, Mauro recolhia tudo isso na memória.
E, ao agradecer à esposa e à família, parecia enfim abrir a porta de uma casa onde o menino da Braúna podia descansar.
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| Mauro, entre Maria Aparecida e dra. Stephanie, o maior tesouro, com o casal Jorge Elias e Maurelisa |


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