Flores na praça, cores no Santuário: a sensibilidade de Raul Travassos
Raul pensou na beleza que receberia os outros
Raul participa dessa conversa silenciosa entre a claridade que chega e a esperança de quem procura abrigo
Há quem entre no Santuário do Senhor Bom Jesus e Santa Rita de Cássia trazendo uma prece tão pesada que mal consegue levantar os olhos. Aos poucos, porém, a beleza o alcança. A luz atravessa os vitrais, encontra as cores das paredes, demora-se nos anjos e nas flores pintadas. Por alguns instantes, até a aflição parece respirar mais devagar.
Raul Travassos deixou sua sensibilidade nesse encontro entre a arte e a fé. Sua contribuição para o embelezamento do interior do templo revela o olhar de quem compreende a delicadeza de um espaço de oração. Nas pinturas e nos elementos decorativos, as cores acolhem o olhar e o conduzem, serenamente, para o altar. Há uma ternura nesse cuidado: alguém pensou na beleza que receberia os outros.
Sob a luz dos vitrais, essa composição ganha novos movimentos. Conforme o dia avança, mudam os reflexos, acendem-se detalhes, surgem outras tonalidades. O templo parece guardar muitas manhãs dentro de si. E o trabalho artístico de Raul participa dessa conversa silenciosa entre a claridade que chega e a esperança de quem procura abrigo.
Do lado de fora, outra intervenção sua entregou ao tempo a tarefa de embelezar: o plantio de duas cássias, em homenagem aos padres Mello e Francisco. Raul confiou à terra uma lembrança que haveria de crescer. Onde se poderia colocar apenas uma inscrição, ele imaginou raízes, ramos, sombra e flores, uma homenagem viva, exposta à chuva, ao sol e ao olhar dos que atravessam a praça.
As duas árvores florescem em épocas diferentes. Há uma poesia nessa alternância, como se uma recolhesse da outra a incumbência de recordar. Quando uma repousa, a outra anuncia sua estação. Os nomes dos sacerdotes encontram, assim, um modo delicado de permanecer na paisagem: a memória sobe pelos troncos e se oferece em flor.
Dentro do Santuário, as cores recebem a luz; diante dele, as cássias recebem as estações. Nessas duas intervenções, Raul Travassos compartilhou com Bom Jesus sua maneira de olhar o mundo. E talvez alguém, ao sair de uma oração, erga os olhos para uma copa florida e leve consigo um pouco daquela claridade. Sem conhecer toda a história, terá sido tocado por ela.
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