A neve caía devagar sobre a estação, pousando nos trilhos, nos galhos e nas pequenas marcas deixadas pelos últimos passageiros. Sob a cobertura antiga, as lanternas acesas espalhavam círculos dourados pelo chão. Mais adiante, a curva da ferrovia desaparecia na névoa.
Foi ali que o músico se sentou.
Trouxe o violoncelo para junto do peito com o cuidado de quem ampara alguém que chegou de uma longa viagem. Acomodou os dedos, inclinou a cabeça e passou o arco sobre as cordas. A primeira nota atravessou o frio, demorando-se entre as colunas de ferro.
Talvez tocasse para alguém. Uma pessoa que partira naquela plataforma, um rosto que ainda procurava nas janelas dos vagões. Talvez aquela melodia tivesse sido ouvida, muitos anos antes, numa sala aquecida, enquanto duas xícaras esfriavam sobre a mesa. Agora, ao tocá-la, ele tornava a perceber o desenho das mãos em torno da porcelana, o ruído de uma cadeira, uma voz chamando seu nome.
Existem lembranças que regressam assim, por um som. Passamos anos sem encontrar o caminho de volta e, de repente, uma frase musical abre a porta. Estamos outra vez diante de quem amamos, com toda a nitidez de um encontro e toda a tristeza de saber que ele dura pouco.
O arco seguia seu curso. A mão esquerda procurava as notas; a direita sustentava cada uma pelo tempo necessário. Às vezes, o músico fechava os olhos. A luz da lanterna alcançava seus cabelos e descia pela madeira do instrumento, onde parecia guardar um resto de verão.
Quem o visse de longe talvez estranhasse aquele concerto sem plateia. Mas havia tanto a dizer naquela estação. As despedidas apressadas, os abraços interrompidos pelo apito, as palavras que alguém levara consigo por não ter conseguido pronunciá-las. O violoncelo emprestava sua voz a essas pequenas demoras do coração.
Também nós guardamos uma plataforma assim. Um lugar ao qual voltamos em pensamento, onde alguém ainda acena, onde gostaríamos de ter permanecido mais alguns minutos. A vida nos levou adiante, vieram outras cidades, outros dias, mas certa luz continua acesa naquele ponto da memória.
A última nota se alongou sobre a neve. O músico manteve o arco suspenso por um instante, como se esperasse uma resposta. Depois baixou a mão e ficou escutando.
Ao longe, alguma coisa moveu a névoa.
Ele ergueu os olhos para a curva dos trilhos.

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