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| Isabel Menezes |
Como historiadora, observo com crescente preocupação o uso indiscriminado de programas gratuitos de Inteligência Artificial na chamada “restauração” de fotografias antigas. Ao comparar a imagem original com a versão gerada por IA, percebe-se que, embora guardem certa semelhança, já não representam a mesma fotografia nem, sobretudo, as mesmas pessoas. A tecnologia não apenas colore, remove manchas ou corrige danos causados pelo tempo, mas refaz traços, altera fisionomias e recria rostos, comprometendo a identidade e a originalidade dos retratados.
Essa prática não é inteiramente nova. Quando eu era criança, era comum a visita de viajantes que recolhiam fotografias de antepassados para transformá-las em pinturas a óleo. O resultado eram quadros tecnicamente bem executados, muitos ainda hoje preservados nas paredes de famílias brasileiras. No entanto, tais pinturas, apesar de belas, raramente eram retratos fiéis.
Lembro-me de minha mãe, mulher simples e analfabeta, mas dotada de grande sensibilidade, afirmar com convicção:
“Eu não gosto desses quadros. Eles mudam a pessoa.”
Sua percepção era correta. Ao aceitar aquelas pinturas como substitutas das fotografias originais, acabamos perdendo inúmeras faces verdadeiras de nossos antepassados. Permaneceram imagens aproximadas, interpretações artísticas, não registros históricos.
No século XXI, a Inteligência Artificial retoma essa lógica sob uma aparência de modernidade e rapidez. Em poucos minutos, uma fotografia antiga em preto e branco pode ser “restaurada” digitalmente, ganhando cores, nitidez e novos traços. Contudo, mais uma vez, a essência da pessoa retratada se perde. O que surge não é um documento histórico aprimorado, mas uma reconstrução fictícia.
Hoje, repito as palavras de minha mãe, agora com o respaldo do conhecimento histórico: não gosto dessas imagens geradas, pois elas mudam a pessoa. É fundamental compreender que fotografias antigas não são defeituosas; elas são marcas de um tempo, de uma técnica e de uma realidade histórica específica.
Podemos, evidentemente, utilizar a Inteligência Artificial de forma lúdica ou experimental. No entanto, quando se trata de memória coletiva, álbuns de família, páginas institucionais, blogs históricos ou redes sociais, é imprescindível preservar e divulgar as imagens reais, mesmo desbotadas, rasgadas ou manchadas. São essas imagens que garantem a transmissão honesta da história às futuras gerações.
Existem, inclusive, ferramentas digitais que priorizam a fidelidade histórica, limitando-se a estabilizar, limpar e conservar a fotografia, sem reinventar rostos ou alterar identidades. Essas práticas respeitam o valor documental da imagem, diferentemente da IA generativa, que cria uma nova versão do passado.
Recentemente, o Papa Leão XIV alertou para os riscos do uso indiscriminado da Inteligência Artificial, ressaltando a necessidade de empregar a tecnologia como ferramenta, jamais como substituta da verdade humana. Rostos e vozes humanas, afirmou ele, são sagrados.
Preservar fotografias históricas de forma ética é preservar a verdade. Cabe a nós, enquanto guardiões da memória, escolher entre a ilusão de uma imagem “perfeita” e a honestidade de um registro autêntico. Para a posteridade, que fique a verdade.
Isabel Menezes é professora , historiadora e escritora de Varre-Sai

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