domingo, 25 de janeiro de 2026

O Brasil é um país mestiço?

 

O País Mestiço que Aprendeu a Negar a Si Mesmo


Quem Tem Medo da Mestiçagem?

A mestiçagem é uma realidade brasileira. Sempre foi.

A mistura de raças é um fato histórico, social e cotidiano. Caminha pelas ruas, ocupa os bancos das praças, senta-se à mesa das casas simples e também nos grandes salões. A mestiçagem não é exceção: é regra. E sua contrapartida cultural chama-se sincretismo, de crenças, costumes, sabores, sons, gestos e modos de ser.

Curiosamente, em países como os Estados Unidos, há uma resistência histórica em aceitar a mestiçagem. Essa recusa influencia políticas públicas que, muitas vezes, não alcançam milhões de jovens negros pobres em situação precária, superlotando prisões e perpetuando desigualdades. A importação acrítica desses modelos para o Brasil, país de formação completamente diversa, tende a ampliar, e não reduzir, nossas injustiças.

Enquanto isso, por aqui, a palavra mestiço parece ter desaparecido do mapa. Sumiu das salas de aula, dos seminários acadêmicos, dos discursos da elite midiática e empresarial. Rareia nas páginas de jornais, revistas e livros que falam do Brasil e das coisas brasileiras.

Há tempos, muitos dos que se apresentam como cronistas, estudiosos e “intérpretes” do país deixaram de olhar para ele. Não observam as pessoas que circulam nos espaços públicos e domésticos, nem a si próprios. Falam do Brasil como se descrevessem outro lugar. Submetidos a uma ideologia imposta, fecham os olhos para nossa história biológica, social e cultural.

Mas a grande mestiçagem popular brasileira está aí, palpitando. O Brasil nasceu e se construiu em um processo intenso e contínuo de contatos, encontros, choques e trocas físicas e simbólicas. O Brasil é, inequivocamente, um país mestiço.

Por que, então, essa realidade não é proclamada por todos?

Talvez porque não baste libertar-se do colonialismo externo. É preciso libertar-se também do colonialismo mental.

Essa é uma lição valiosa de Antônio Risério em sua obra Mestiçagem, Identidade e Liberdade: compreender quem somos exige coragem para olhar nossa própria face, múltipla, híbrida e profundamente brasileira.

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