Nas dobras do tempo, a história costuma se esconder sob a poeira de velhos sótãos, aguardando que mãos sensíveis a tragam de volta à luz. Em Varre-Sai, esse papel de guardiã da memória cabe a Maria da Conceição Vargas. Açordescendente de alma e linhagem, Maria não apenas habita o solo fluminense; ela o escava com o olhar atento de quem sabe que o passado é um organismo vivo, palpitante sob a superfície do presente.
A memorialista resgatou uma joia esquecida, sobre uma pesquisa realizada por outro notavel memorialista, o dr. José Luiz Teixeira.
um recorte de jornal datado de 15 de dezembro de 1899. Nele, as letras amareladas revelaram uma presença que redesenha a cronologia da fé na região: o açoriano Padre Antônio Francisco de Mello. O documento, que relata a condução da Festa de São Sebastião, só pôde ser plenamente compreendido graças à pronta e valiosa atuação de José Antônio Alvarenga Borges, vice-presidente da Casa dos Açores do Espírito Santo (CAES), cuja tradução foi o sopro necessário para dar voz ao papel mudo.
A Dança das Datas e a Reescrita do Passado
Até então, a historiografia local trabalhava com uma moldura mais estreita. Sabia-se que o Padre Mello fora o pároco dessas paragens entre 1916 e 1924. No entanto, o rigor da pesquisa de Maria da Conceição, cruzado com a verve poética de "Douto Burro", versos de 1915 que já sussurravam o nome de Varre-Sai, forçou a história a recuar o relógio.
A conclusão é um abraço entre o fato e a evidência: Padre Mello não foi um visitante tardio. Ele assumiu o comando espiritual de Varre-Sai e Bom Jesus do Itabapoana logo em sua chegada ao solo fluminense, naquele emblemático 18 de junho de 1899.
Um Legado que Une Cidades
Essa efervescência de descobertas não permanece restrita aos arquivos. Ela ganha as ruas e o calendário cultural através do olhar da historiadora e escritora varre-saiense Isabel Menezes. Com a sensibilidade de quem entende que a história é feita de pontes, Isabel organiza o Encontro Cultural Intermunicipal entre Varre-Sai e Bom Jesus do Itabapoana.
O evento está marcado para o dia 16 de abril, data que celebra o "Mês de Padre Mello". Será um momento de comunhão entre as duas cidades que compartilharam o pastoreio do clérigo açoriano, transformando a pesquisa acadêmica em celebração viva de identidade.
O que Maria da Conceição Vargas e Isabel Menezes nos oferecem, cada uma em seu ofício, não é apenas um ajuste de calendário, mas uma restituição de pertencimento. As pesquisas sobre o Padre Mello deixaram de ser notas de rodapé para se tornarem capítulos centrais da odisseia açoriana no Brasil, provando que, enquanto houver quem busque e quem celebre, o passado jamais terá a última palavra.


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