sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Padre Mello e a missa na Braúna

 

Carolina Boechat 

O fluxo inexorável do tempo é o senhor dos sentimentos e das emoções . Ele é capaz de  transformar a saudade em memórias e as memórias em histórias que atravessarão gerações; perpetuando, de alguma forma, a existência daqueles que deixaram marcas durante sua passagem pela vida.

Mas há pessoas tão especiais que, sem nenhum esforço, adiarão infinitamente a morte depois da morte, a morte absoluta conforme o poema instigante de Manuel Bandeira, morrer sem sequer deixar um nome.

E esta imortalidade nem precisa ser universal; pode ser doméstica, caber na história de uma cidade ou no coração daqueles que repetirão feitos e frases e a eles darão autoria.

Cismada, eu me pergunto se há alguma predestinação, se alguém que saiu de um arquipélago português situado, literalmente, no meio do Atlântico, entre a América e a Europa, pressentia sua vocação para permanecer vivo e lembrado em lugares tão distantes de sua terra natal, feito conquistado por Padre Mello.

Dono de inúmeros atributos e camadas de conhecimento, o sacerdote tinha um temperamento afável, convivendo prazerosamente com os seus fiéis, o que rendeu momentos contados e recontados, imortalizados pelo tempo e chegando até muitos de nós que sequer o conhecemos.

Em nossa convivência familiar, sempre que se experimenta uma refeição em dose  exagerada, é certo que alguém resgata lá do baú de memórias uma comparação infalível que atravessa gerações e que traduz o momento: comeu que nem o Padre Mello quando ia rezar missa na Braúna!

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