sexta-feira, 28 de novembro de 2025

"Praça João Catarina em noite de acender estrelas", por Adalton Boechat Júnior


Adalto Boechat Júnior



Este ano, a praça João Catarina, coração miúdo e luminoso de Pirapetinga de Bom Jesus, começou a respirar Natal antes mesmo de dezembro. Há lugares que parecem ter memória própria, e ali, cada pedra guarda o riso dos meninos que correram, muitos anos antes, com fitas, galhos e enfeites improvisados. Este ano, porém, não foi diferente: os meninos voltaram. Voltaram maiores, talvez mais sérios, mas com a mesma inocência nos olhos. Vieram ajudar a arrumar a praça. Como se cada lâmpada pendurada fosse também uma promessa à infância que insiste em ficar.

À frente do trabalho, dois rostos conhecidos: Ivan Zhamorano e Jefinho, o Jefim irmão, como é chamado ali, com a intimidade de quem conhece o outro de longas datas e pequenas histórias. E no canto, sempre atento, Zé da Vó, figura querida da Vargem Alegre, distribuindo risos, conselhos e aquela sabedoria de quem sabe que espírito de Natal não se compra; cultiva-se.

Ivan é desses jovens que carregam luz própria. Filho da Geiza, artista autodidata, aprendeu desde cedo que criar é resistir. Entre estudos, esforço e noites de sonho acordado, tornou-se agente comunitário, e hoje é suporte, voz e abraço para muita gente da comunidade. Ao seu lado, Alessandra Soares, filha do Zé do Valfredo e de Maria Alice, tece com suas mãos e seu entusiasmo a parte mais delicada dos festejos: a que mantém acesa a chama das tradições.

É com ela, comigo e com Anizia  Maria, da Escola de Música JEMAJ, que a cantata vai tomando forma. Vasculhamos vozes e memórias: corais, trovadores, seresteiros, foliões. Cada chamado é um fio puxado da história que nunca se apaga. A cantata acontecerá no dia 13 de dezembro, celebrando o aniversário do museu, esse guardião de tempos, e, ao mesmo tempo, agradecendo. Porque agradecer também é uma arte.

Agradecer ao Menino Jesus pelas colheitas que vingaram, pelas chuvas que caíram no tempo certo, pela fartura que alimentou o gado e pelas mãos firmes dos pequenos produtores, que trabalham a terra como quem reza.

Agradecer pela saúde que voltou a quem estava fraco, pelas melhoras que chegaram como um alívio silenciosobàs famílias que esperavam.

Naquela tarde em que os enfeites foram pendurados, era possível ver,  no brilho dos olhos de quem montava a praça, que o Natal não é só uma data: é o reencontro de uma comunidade com o que ela tem de mais bonito. A praça João Catarina, iluminada pelos esforços de Ivan, Jefim, Alessandra e tantos outros, parecia respirar mais fundo. Como se estivesse, ela também, se preparando para cantar.

E assim, entre fios de luz, fitas vermelhas e um céu que começava a escurecer, Pirapetinga de Bom Jesus acendeu suas primeiras estrelas. Não as do céu, mas as que nascem das mãos humanas quando trabalham juntas.

E essas...essas iluminam por muito mais tempo.




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