Existem homenagens que parecem chegar pela rua, junto com o som de uma banda. Antes que terminemos de ler, já escutamos alguma coisa dentro de nós: uma lembrança de infância, o despertar de uma manhã de festa, a alegria de abrir a janela para ver a música passar.
Assim chegam as duas homenagens dedicadas ao Maestro Nilo Rodrigues de Oliveira, por seus 93 anos de vida: a bela imagem acompanhada de uma mensagem amorosa de seu filho Eliton de Souza Polverini, conhecido como Muchacho, e a poesia do açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves. Dois gestos de carinho que se encontram como instrumentos de uma mesma banda, cada qual com sua voz, unidos pela gratidão.
Na imagem preparada por Muchacho, o rosto do pai ilumina a homenagem. As palavras celebram sua dedicação, seu compromisso e seu amor pela música, reconhecendo a marca inesquecível que deixou na Lira Operária Bonjesuense e na comunidade de Bom Jesus do Itabapoana. Ao desejar saúde, alegria e a bênção de Deus junto à família e aos amigos, o filho oferece ao pai um abraço escrito. Em cada palavra, sente-se o afeto de quem encontra, naquela vida, uma parte essencial da própria história.
A poesia de Francisco Amaro prolonga esse abraço e leva a Lira para perto do leitor. A alvorada ganha som, a rua ganha movimento, e Bom Jesus se deixa reconhecer nessa emoção tão sua: acompanhar uma banda com os olhos, enquanto o coração segue adiante.
“A Lira passa, a gente escuta”, escreve Francisco Amaro. Na simplicidade desse verso, cabe uma experiência inteira. A música vem ao nosso encontro, alcança quem estava distraído, demora um pouco à porta de uma casa, chama alguém à janela. E, por alguns instantes, pessoas com preocupações tão diferentes compartilham a mesma melodia.
À frente dessa passagem sonora, o poeta coloca o “Mestre Nilo Relojoeiro”, regendo com sua batuta. É uma imagem de rara beleza. O ofício e a música se encontram no nome pelo qual o maestro é carinhosamente lembrado. Podemos imaginar a delicadeza necessária para cuidar de um relógio e a atenção exigida para conduzir uma banda: ouvir, perceber o menor descompasso, dar a cada movimento o seu momento.
No meio do relógio e a batuta, o tempo adquire outra dimensão. Há o tempo contado pelas horas e aquele que guardamos pela emoção. Uma manhã distante pode voltar inteira quando ouvimos uma melodia. Um rosto querido pode reaparecer na lembrança ao som de uma banda. E aquilo que parecia perdido encontra, de repente, um caminho de volta.
A homenagem de Muchacho e a poesia de Francisco Amaro nos convidam a sentir essa permanência. Ao celebrar Nilo Rodrigues de Oliveira, reconhecem a presença de um homem na vida musical de sua comunidade. A batuta, evocada nos versos, torna-se também um gesto de encontro: reúne os músicos, conduz a execução e oferece à cidade uma beleza que todos podem receber e levar consigo.
Os 93 anos dão à celebração a grandeza de uma longa caminhada. São anos que a homenagem acolhe com respeito e ternura, enquanto a música ajuda a dizer o que os números, sozinhos, jamais poderiam expressar. No sorriso do maestro, no carinho do filho e nos versos do poeta, o aniversário ganha a intimidade de uma festa em família e a ressonância de uma alegria compartilhada pela cidade.
Nas últimas linhas, Francisco Amaro confessa a dificuldade de encontrar uma maneira de agradecer. Talvez seja essa a parte mais comovente do poema. Dar parabéns é possível; expressar tudo o que uma pessoa representa exige procurar palavras onde a emoção quase sempre chega primeiro.
O poeta encontra essas palavras no afeto. Sua poesia tem a proximidade de quem deseja falar olhando nos olhos, com a sinceridade de um reconhecimento que não precisa de cerimônia para ser profundo. Muchacho, por sua vez, encontra na imagem e na mensagem um modo de envolver o pai em carinho. Juntas, as duas homenagens oferecem aos bonjesuenses a oportunidade de reconhecer o valor de uma vida ligada à música que acompanha suas lembranças.
E assim, enquanto a Lira passa pelos versos, alguma coisa permanece.
Permanece o carinho pelo Maestro Nilo. Permanece o abraço de Muchacho. Permanece a gratidão de Francisco Amaro. Permanece essa delicada certeza de que uma cidade também guarda sua história naquilo que escuta.
O relógio segue marcando as horas. A batuta encontra, na poesia, um modo de prolongar a música. E Bom Jesus, tocada por essas homenagens, abre mais uma vez a janela, como quem reconhece, ao longe, uma melodia querida e deseja que ela demore um pouco mais.
Parabéns pelos 93 anos, Maestro Nilo! Que Deus lhe conceda saúde, alegria e muitos dias cercados pelo amor de sua família e de seus amigos. Que o carinho que hoje chega até o senhor tenha a beleza de uma alvorada da Lira: dessas que despertam a cidade e continuam tocando, por muito tempo, dentro do coração.
Parabéns, Maestro Nilo!
Francisco Gonçalves
Vem lá do Noroeste Fluminense
Um belo som, em plena Alvorada
Música, composição tocada
P'la Lira Operária Bonjesuense
A Lira passa, a gente escuta
Há sempre um bom sentir prazenteiro
E o Mestre Nilo Relojoeiro,
Regendo com sua batuta
PARABÉNS não é difícil de dar
Pelo aniversário e tudo aquilo
Que em sua vida tem feito brilhar
Difícil é encontrar maneira
De agradecer ao Maestro Nilo,
D. NILO RODRIGUES DE OLIVEIRA.

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