quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A próxima geração do Uzbequistão já faz história no xadrez mundial

 

Aos 16 anos, Begmuratov simboliza a renovação do xadrez no Uzbequistão



Em certos países o amanhã chega pelas mãos de meninos. No Uzbequistão, alguns deles se sentam diante de um tabuleiro, acertam a posição das peças e apertam o relógio. Começa uma partida. Ao redor, os adultos procuram disfarçar a ansiedade.

Samarcanda, antiga cidade de encontros e travessias, viu passar mercadores, sábios e viajantes. Por seus caminhos circularam tecidos, especiarias, palavras e descobertas. Agora, sobre sessenta e quatro casas, outros jovens traçam suas rotas. Levam consigo uma bagagem que pesa pouco nas mãos e muito na alma: as horas de estudo, os erros que custaram o sono, a confiança de quem os ensinou.

O mundo já conhece o brilho dos grandes enxadristas uzbeques. Mas, enquanto os olhos acompanham os campeões, convém olhar para os tabuleiros próximos. Ali também amadurece uma geração. Há rapazes que ainda conservam no rosto a infância e já precisam encontrar, sozinhos, uma saída para posições que fariam veteranos franzirem a testa.

Xumoyun Begmuratov é um desses nomes.

Aos dezesseis anos, a conquista do título de grande mestre dá forma pública a um trabalho que quase ninguém viu inteiro. A notícia cabe em poucas linhas. A preparação que a tornou possível ocupou tardes, noites, cadernos e incontáveis partidas. Há uma beleza discreta nisso: antes que o aplauso chegue, alguém precisa continuar estudando.

Imaginamos suas mãos suspensas por um instante sobre as peças. O adversário espera. O relógio segue. Em algum ponto do cálculo, uma variante parece promissora; logo adiante, esconde uma dificuldade. É preciso voltar, conferir, desconfiar da própria certeza. Até que a mão desce e o lance fica no tabuleiro, entregue ao julgamento da partida.

Durante a Olimpíada de Samarcanda, a equipe Uzbequistão-2 alcançou o terceiro lugar após nove rodadas. A pequena cifra acrescentada ao nome do país talvez sugerisse aos distraídos uma presença secundária. Os jovens deram a ela outro significado. A cada rodada, os torcedores tinham mais uma razão para se aproximar, consultar os resultados, esperar.

Deve haver uma alegria especial em reconhecer tão cedo os que vêm chegando. Ver um menino enfrentar um jogador experiente; perceber que ele suporta a pressão; acompanhar uma defesa difícil até o momento em que o perigo passa. E, então, respirar com ele.

A satisfação de Pavel Eljanov diante do resultado de Xumoyun contra a Inglaterra pertence a essa espécie de alegria. Quem acompanha a formação de um jovem conhece o caminho que existe por trás de um lance bem escolhido. Reconhece, naquela decisão, uma lição finalmente incorporada, uma hesitação vencida, uma confiança que começa a se sustentar.

É assim que uma tradição ganha continuidade: alguém ensina, alguém escuta, ambos analisam um erro. No dia seguinte, as peças voltam às casas iniciais.

A próxima geração do Uzbequistão cresce perto de exemplos extraordinários. Pode ver seus compatriotas vencerem e imaginar que aquele caminho também lhe pertence. Mas cada jovem terá de percorrê-lo com os próprios passos, encontrar seu estilo, aprender a perder sem abandonar o estudo e a vencer sem deixar de aprender.

Entre os torcedores de Samarcanda, alguma criança observou Xumoyun por alguns minutos a mais. Talvez tenha voltado para casa querendo compreender aquela combinação, reproduzir aquela partida, conhecer melhor o jogo.

Gostamos de pensar nessa cena.

Depois que o salão se esvazia e os grandes mestres partem, um pequeno tabuleiro é aberto sobre uma mesa. Alguém ajeita as peças com cuidado. Do lado de fora, a cidade continua sua vida antiga.

Dentro de casa, uma criança move o primeiro peão.

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