Existem prédios que oferecem à cidade um lugar para comprar, vender, trabalhar. Outros, além disso, oferecem uma pequena porção de beleza a quem passa. O edifício da Casa do Produtor, com sua fachada azul e branca, parece conservar essa antiga delicadeza: a vontade de que mesmo os dias comuns tenham um ornamento.
Basta levantar os olhos. Acima das portas, da identificação comercial e da cobertura que acompanha a calçada, a construção desenha seu encontro com o céu. A platibanda, o prolongamento da fachada que esconde o telhado, ergue um coroamento de curvas, relevos e pequenos arremates. No centro, o desenho ganha altura, como se a velha casa ainda quisesse dizer alguma coisa por cima da pressa da rua.
Pela fotografia, esses elementos sugerem uma arquitetura de feição eclética, em expressão singela, reconhecível sobretudo na ornamentação do alto da fachada e nas molduras que a percorrem. É uma linguagem que encontrou espaço tanto em construções imponentes quanto em casas e estabelecimentos comerciais, levando às ruas o gosto por compor, adornar e conferir personalidade às paredes.
Uma hipótese visual prudente situaria a execução dessa fachada nas primeiras décadas do século XX, aproximadamente entre 1900 e 1930. A imagem, porém, não permite estabelecer um ano: o prédio pode ser anterior ao seu coroamento decorativo, assim como pode ter recebido alterações ao longo da existência. A data precisa permanece à espera de documentos, fotografias antigas ou lembranças que possam ser confirmadas.
Enquanto os arquivos não falam, a fachada oferece sua própria poesia.
O azul reúne suas curvas sob a claridade do dia. Os relevos, discretos e um pouco apagados pela distância, guardam o gesto de quem os moldou. Houve mãos trabalhando ali, medindo proporções, preparando argamassa, acompanhando uma linha até que ela encontrasse a outra. Alguém julgou necessário acrescentar beleza à utilidade daquele edifício. E esse cuidado atravessou os anos.
Hoje, os fios cortam o céu, o poste ocupa parte da vista, as portas atendem às necessidades do comércio. A vida continua passando e deixando suas adaptações. Ainda assim, no alto, sobrevive aquele desenho que nos convida a diminuir o passo.
A inscrição “Casa do Produtor” acrescenta outra ternura à cena. Há, nessa palavra, a lembrança do trabalho que começa longe das vitrines: a terra preparada, a espera pela chuva, o alimento que chega à cidade. Sob uma fachada ornamentada, encontram-se as necessidades concretas de quem produz e a antiga aspiração humana de construir algo que também agrade aos olhos.
Preservar esse prédio pede atenção ao conjunto e aos detalhes: às curvas da platibanda, às molduras, às proporções que ainda permitem reconhecer sua expressão. Cada elemento conservado mantém aberta uma possibilidade de leitura da cidade.
Uma rua também se lembra pelo contorno de suas casas.
E, sempre que aquela fachada azul permanecer erguida, haverá um pouco de outro tempo olhando para nós, à espera de que levantemos os olhos.

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