sábado, 31 de outubro de 2026

Magnus prepara Abdusattorov como seu sucessor?



Na Espanha, um tabuleiro reúne dois homens que, em outras circunstâncias, estariam separados pela tensão de um torneio. De um lado, Magnus Carlsen, que há tantos anos faz o mundo acompanhar o movimento de suas mãos. Do outro, Nodirbek Abdusattorov, jovem uzbeque que já aprendeu a enfrentar os grandes sem baixar os olhos.

Há, nessa aproximação, uma lembrança que torna a história ainda mais bonita: Magnus conhece Abdusattorov desde que o uzbeque era criança, quando os dois já jogavam futebol juntos. A fotografia daquele tempo guarda o menino correndo ao lado do ídolo, ambos entregues à alegria de uma bola sobre a grama.

Anos depois, aquele menino ocupa uma cadeira diante do mesmo Magnus, agora para compartilhar análises e se preparar para novos desafios. Entre o campo e as sessenta e quatro casas, amadureceu um talento que o norueguês pôde acompanhar.

As imagens do treinamento despertam uma pergunta irresistível: estaria Magnus preparando seu sucessor?

Uma fotografia, por si só, não oferece a resposta. Não conhecemos todas as conversas, as variantes examinadas, os silêncios depois de um lance surpreendente. Vemos peças, rostos atentos e a proximidade entre dois adversários que aceitaram compartilhar algumas horas de pensamento.

O cronista, porém, demora-se justamente no que a fotografia deixa em aberto.

Imaginamos o instante em que Abdusattorov propõe uma continuação e Magnus se inclina sobre o tabuleiro. Há uma ideia ali que merece ser examinada. Por alguns segundos, os títulos ficam suspensos. O jovem expõe seu raciocínio; o veterano escuta. Uma peça muda de casa, e ambos tornam a pensar.

Talvez seja assim que o futuro comece a entrar: por uma variante que o outro ainda não havia considerado.

Abdusattorov já possui sua própria história. Foi campeão mundial de xadrez rápido aos 17 anos e conhece a experiência de vencer Magnus. Chega àquele encontro com ambição, memória e recursos próprios. Deve haver muito que deseja aprender. Deve haver também muito que pode oferecer.

Para Carlsen, o jovem representa um desafio precioso. Depois de tantos anos no alto, encontrar alguém capaz de perturbar suas certezas pode ser uma forma de renovar o prazer do jogo. O campeão observa o talento diante dele e, enquanto o testa, continua sendo testado.

É emocionante pensar nessa disposição para abrir a porta a um possível rival. O tabuleiro que amanhã poderá separá-los hoje permite a conversa. Uma análise compartilhada pode voltar, meses depois, transformada em dificuldade numa partida decisiva. Ainda assim, eles se sentam e jogam.

Haveria nisso um desejo de transmitir alguma coisa? Talvez. Mas seria precipitado enxergar uma escolha de herdeiro em cada gesto de generosidade. Magnus pode estar simplesmente buscando a melhor preparação, a companhia de uma inteligência que o estimula, algumas boas partidas sob o céu espanhol.

A sucessão será decidida em muitos outros lugares: nos salões dos torneios, no cansaço de uma última rodada, na coragem de assumir um risco quando o relógio já ameaça. Abdusattorov terá de percorrer esse caminho com os próprios passos.

Por enquanto, temos a imagem dos dois diante das peças. E há poesia nesse reencontro: o menino que um dia correu ao lado do campeão cresceu e passou a disputar com ele os caminhos da vitória.

A cena alimenta uma bela suspeita: a de que Magnus reconheça, naquele jovem, alguém capaz de levar o xadrez a lugares que ele próprio gostaria de conhecer.

Se um dia Abdusattorov ocupar o cume, talvez voltemos a essas fotografias à procura de um sinal.

Hoje, há uma porta aberta na Espanha, um tabuleiro sobre a mesa e dois grandes jogadores tentando descobrir o próximo lance.






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