Na Espanha, um tabuleiro reúne dois homens que, em outras circunstâncias, estariam separados pela tensão de um torneio. De um lado, Magnus Carlsen, que há tantos anos faz o mundo acompanhar o movimento de suas mãos. Do outro, Nodirbek Abdusattorov, jovem uzbeque que já aprendeu a enfrentar os grandes sem baixar os olhos.
Há, nessa aproximação, uma lembrança que torna a história ainda mais bonita: Magnus conhece Abdusattorov desde que o uzbeque era criança, quando os dois já jogavam futebol juntos. A fotografia daquele tempo guarda o menino correndo ao lado do ídolo, ambos entregues à alegria de uma bola sobre a grama.
Anos depois, aquele menino ocupa uma cadeira diante do mesmo Magnus, agora para compartilhar análises e se preparar para novos desafios. Entre o campo e as sessenta e quatro casas, amadureceu um talento que o norueguês pôde acompanhar.
As imagens do treinamento despertam uma pergunta irresistível: estaria Magnus preparando seu sucessor?
Uma fotografia, por si só, não oferece a resposta. Não conhecemos todas as conversas, as variantes examinadas, os silêncios depois de um lance surpreendente. Vemos peças, rostos atentos e a proximidade entre dois adversários que aceitaram compartilhar algumas horas de pensamento.
O cronista, porém, demora-se justamente no que a fotografia deixa em aberto.
Imaginamos o instante em que Abdusattorov propõe uma continuação e Magnus se inclina sobre o tabuleiro. Há uma ideia ali que merece ser examinada. Por alguns segundos, os títulos ficam suspensos. O jovem expõe seu raciocínio; o veterano escuta. Uma peça muda de casa, e ambos tornam a pensar.
Talvez seja assim que o futuro comece a entrar: por uma variante que o outro ainda não havia considerado.
Abdusattorov já possui sua própria história. Foi campeão mundial de xadrez rápido aos 17 anos e conhece a experiência de vencer Magnus. Chega àquele encontro com ambição, memória e recursos próprios. Deve haver muito que deseja aprender. Deve haver também muito que pode oferecer.
Para Carlsen, o jovem representa um desafio precioso. Depois de tantos anos no alto, encontrar alguém capaz de perturbar suas certezas pode ser uma forma de renovar o prazer do jogo. O campeão observa o talento diante dele e, enquanto o testa, continua sendo testado.
É emocionante pensar nessa disposição para abrir a porta a um possível rival. O tabuleiro que amanhã poderá separá-los hoje permite a conversa. Uma análise compartilhada pode voltar, meses depois, transformada em dificuldade numa partida decisiva. Ainda assim, eles se sentam e jogam.
Haveria nisso um desejo de transmitir alguma coisa? Talvez. Mas seria precipitado enxergar uma escolha de herdeiro em cada gesto de generosidade. Magnus pode estar simplesmente buscando a melhor preparação, a companhia de uma inteligência que o estimula, algumas boas partidas sob o céu espanhol.
A sucessão será decidida em muitos outros lugares: nos salões dos torneios, no cansaço de uma última rodada, na coragem de assumir um risco quando o relógio já ameaça. Abdusattorov terá de percorrer esse caminho com os próprios passos.
Por enquanto, temos a imagem dos dois diante das peças. E há poesia nesse reencontro: o menino que um dia correu ao lado do campeão cresceu e passou a disputar com ele os caminhos da vitória.
A cena alimenta uma bela suspeita: a de que Magnus reconheça, naquele jovem, alguém capaz de levar o xadrez a lugares que ele próprio gostaria de conhecer.
Se um dia Abdusattorov ocupar o cume, talvez voltemos a essas fotografias à procura de um sinal.
Hoje, há uma porta aberta na Espanha, um tabuleiro sobre a mesa e dois grandes jogadores tentando descobrir o próximo lance.




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