Em alguns lugares a música parece encontrar uma janela aberta para o infinito. No tradicional Hotel Espadarte, em Iriri, encantador balneário de Anchieta, no sul do Espírito Santo, o maestro Mauro fez de seu saxofone essa janela. Por ela, passaram melodias, lembranças e sentimentos que as palavras nem sempre conseguem alcançar.
Com seu saxofone mágico, Mauro foi show. Há algo de profundamente emocionante no gesto de um músico que oferece o próprio sopro para fazer nascer uma canção. Antes de percorrer o instrumento, aquele ar esteve dentro de um peito. Vem daí a capacidade do saxofone de soar tão próximo de nós: em sua voz de metal, reconhecemos alguma coisa da nossa própria humanidade.
Em Iriri, onde o mar tem sua antiga maneira de conversar com a areia, a música do maestro encontrou uma paisagem à altura de sua delicadeza. Podemos imaginar as notas prolongando o movimento das ondas, abrindo pequenas enseadas na memória de quem as escutava. Cada pessoa guarda uma canção que a leva de volta a algum lugar; às vezes, bastam poucas notas para que uma ausência se faça companhia.
A força da música instrumental está nesse valor humano. Embora encontre pouco espaço em grande parte dos meios de comunicação, ela continua reunindo pessoas e despertando emoções. Não precisa de uma letra para dizer saudade. Um fraseado pode sugerir ternura; uma nota sustentada pode conter a demora de uma despedida. Quem escuta participa da criação, emprestando à melodia a própria história.
Em Bom Jesus do Itabapoana, essa linguagem encontra também um intérprete de brilho especial: Eliton Polverine, o querido Muchacho. Seu saxofone vibrante leva a marca de uma sensibilidade que se transforma em presença musical. Tendo se apresentado até na Itália, Muchacho nos dá a alegria de ver um talento ligado à nossa terra alcançar outras paisagens e outros ouvintes.
Mauro e Muchacho lembram, cada qual com sua maneira de tocar, quanto pode caber no sopro de um instrumento. Existe estudo, dedicação e escuta por trás da beleza que chega ao público. Existe uma vida inteira educando as mãos e a respiração para que, em determinado instante, a música pareça nascer com a naturalidade de uma conversa entre amigos.
E assim, entre o litoral capixaba e as terras banhadas pelo Itabapoana, o saxofone vai encontrando seus caminhos. Depois da última nota, o músico recolhe o instrumento, as conversas recomeçam e a vida segue. Mas alguém ainda leva consigo um trecho da melodia, e, sem perceber, caminha ao ritmo daquela beleza.

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